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terça-feira, 10 de maio de 2011

Folha: Interventora petista tentará abafar crise na área da Cultura

O governo nomeou uma "interventora" no Ministério da Cultura para conter disputas e preservar a ministra Ana de Hollanda, alvo de críticas, acentuadas com o uso de diárias em fins de semana sem agenda.

A secretária nacional de Cultura do PT, Morgana Eneile, se tornou assessora especial.

Planalto intervém para conter crise na pasta da Cultura

Dirigente do PT assume posto-chave no ministério para ajudar Ana de Hollanda a controlar disputa política

Divergências com antecessor, suspensão de convênios e uso de diárias de viagem desgastam ministra

Natuza Nery, Fernanda Odilla e Catia Seabra

BRASÍLIA - O governo decidiu intervir no Ministério da Cultura para tentar controlar o bombardeio sofrido pela titular da pasta, Ana de Hollanda.

Com o apoio do PT, escalou uma "interventora" para o órgão com o objetivo de represar a disputa política e evitar que a situação chegue ao ponto em que a presidente Dilma Rousseff se veja obrigada a demitir a ministra.

A secretária nacional de Cultura do PT, Morgana Eneile, foi nomeada assessora especial da ministra com a missão expressa de ajudá-la a debelar a crise e construir uma agenda positiva.

Eneile apoiou a indicação de Hollanda para o ministério, em dezembro passado.

A ministra tornou-se alvo de críticas por várias razões.

Ela quis rever a reforma na lei de direitos autorais prometida por seu antecessor, Juca Ferreira, e suspendeu o pagamento de convênios com indícios de irregularidades.

Também eliminou do site do ministério o selo "Creative Commons", licença para uso livre de conteúdo na internet.

Em outra frente, fragilizou-se entre os petistas. Provocou isso ao cancelar a nomeação do sociólogo Emir Sader para presidir a Fundação Casa de Rui Barbosa, depois que ele declarou em entrevista à Folha que a ministra era "meio autista".

Todos esses episódios, somados ao uso de diárias de viagem em finais de semana sem agenda oficial, transformaram Ana de Hollanda na mais frágil residente da Esplanada dos Ministérios.

Dilma autorizou a operação para salvar sua auxiliar, mas espera que ela dê demonstrações de que consegue neutralizar os ataques.

"Ela está sob uma guerra psicológica pesada", disse ontem o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral).

"A posição no Planalto é de apoio e respaldo a ela. Agora, tudo depende dela e da capacidade de sua equipe de cerrar fileiras em sua defesa."

CHORO

Em encontro com lideranças do PT ontem em São Paulo, Ana de Hollanda deu sinais de fragilidade.

Observada da plateia por Morgana Eneile, que estava com outros assessores, ela chorou no início de sua fala, pediu desculpas e disse que estava emocionada. Gaguejou ao explicar a estrutura da pasta e lamentou não ter tempo para responder perguntas.

Brevemente, comentou a crise: culpou a imprensa por publicar "intrigas" e afirmou em seguida: "Meus companheiros estão comigo".

Para interlocutores de Dilma, Ana de Hollanda sofre uma das campanhas mais "sórdidas" já protagonizadas por um ministro em apenas cinco meses de gestão.

No Planalto, o ex-ministro Juca Ferreira é visto como um dos interessados no enfraquecimento da sucessora, após ter feito intensa campanha para seguir no comando do ministério. A Folha não conseguiu localizá-lo para comentar o assunto.

Para demonstrar que, por enquanto, ela conta com a retaguarda do Planalto, Gilberto Carvalho visitará a colega amanhã. Nas palavras de um interlocutor da presidente, quando um técnico tira um jogador de campo antes do fim do primeiro tempo, é porque errou na escalação. Ou seja: por ora a demissão não interessa ao Executivo.

Dilma, contudo, não pretende segurar Ana de Hollanda a qualquer preço.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

domingo, 27 de março de 2011

Globo 27/03 - - Caetano Veloso - Bethânia

Não concebo por que o cara que aparece no YouTube ameaçando explodir o Ministério da Cultura com dinamite não é punido. O que há afinal? Será que consideram a corja que se “expressa” na internet uma tribo indígena? Inimputável? E cadê a Abin, a PF, o MP? O MinC não é protegido contra ameaças? Podem dizer que espero punição porque o idiota xinga minha irmã. Pode ser. Mas o que me move é da natureza do que me fez reagir à ridícula campanha contra Chico ter ganho o prêmio de Livro do Ano. Aliás, a “Veja” (não, Reinaldo, não danço com você nem morta!) aderiu ao linchamento de Bethânia com a mesma gana. E olha que o André Petry, quando tentou me convencer a dar uma entrevista às páginas amarelas da revista marrom, me assegurou que os então novos diretores da publicação tinham decidido que esta não faria mais “jornalismo com o fígado” (era essa a autoimagem de seus colegas lá dentro). Exigi responder por escrito e com direito a rever o texto final. Petry aceitou (e me disse que seus novos chefes tinham aceito). Terminei não dando entrevista nenhuma, pois a revista (achando um modo de me dizer um “não” que Petry não me dissera — e mostrando que queria continuar a “fazer jornalismo com o fígado”) logo publicou ofensa contra Zé Miguel, usando palavras minhas.

A histeria contra Chico me levou a ler o romance de Edney Silvestre (que teria sido injustiçado pela premiação de “Leite derramado”). Silvestre é simpático, mas, sinceramente, o livro não tem condições sequer de se comparar a qualquer dos romances de Chico: vi o quão suspeita era a gritaria, até nesse pormenor. Igualmente suspeito é o modo como “Folha”, “Veja” e uma horda de internautas fingem ver o caso do blog de Bethânia. O que me vem à mente, em ambas as situações, é a desaforada frase obra-prima de Nietzsche: “É preciso defender os fortes contra os fracos.” Bethânia e Chico não foram alvejados por sua inépcia, mas por sua capacidade criativa.

A “Folha” disparou, maliciosamente, o caso. E o tratou com mais malícia do que se esperaria de um jornal que — embora seu dono e editor tenha dito à revista “Imprensa”, faz décadas, que seu modelo era a “Veja” — se vende como isento e aberto ao debate em nome do esclarecimento geral. A “Veja” logo pôs que Bethânia tinha ganho R$ 1,3 milhão quando sabe-se que a equipe que a aconselhou a estender à internet o trabalho que vem fazendo apenas conseguiu aprovação do MinC para tentar captar, tendo esse valor como teto. Os editores da revista e do jornal sabem que estão enganando os leitores. E estimulando os internautas a darem vazão à mescla de rancor, ignorância e vontade de aparecer que domina grande parte dos que vivem grudados à rede. Rede, aliás, que Bethânia mal conhece, não tendo o hábito de navegar na web, nem sequer sentindo-se atraída por ela.

Os planos de Bethânia incluíam chegar a escolas públicas e dizer poemas em favelas e periferias das cidades brasileiras. Aceitou o convite feito por Hermano como uma ampliação desse trabalho. De repente vemos o Ricardo Noblat correr em auxílio de Mônica Bergamo, sua íntima parceira extracurricular de longa data. Também tenho fígado. Certos jornalistas precisam sentir na pele os danos que causam com suas leviandades. Toda a grita veio com o corinho que repete o epíteto “máfia do dendê”, expressão cunhada por um tal Tognolli, que escreveu o livro de Lobão, pois este é incapaz de redigir (não é todo cantor de rádio que escreve um “Verdade tropical”). Pensam o quê? Que eu vou ser discreto e sóbrio? Não. Comigo não, violão.

O projeto que envolve o nome de Bethânia (que consistiria numa série de 365 filmes curtos com ela declamando muito do que há de bom na poesia de língua portuguesa, dirigidos por Andrucha Waddington), recebeu permissão para captar menos do que os futuros projetos de Marisa Monte, Zizi Possi, Erasmo Carlos ou Maria Rita. Isso para só falar de nomes conhecidos. Há muitos que desconheço e que podem captar altíssimo. O filho do Noblat, da banda Trampa, conseguiu R$ 954 mil. No audiovisual há muitos outros que foram liberados para captar mais. Aqui o link:
http://www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2011/02/Resultado-CNIC-184%C2%AA.pdf
Por que escolher Bethânia para bode expiatório? Por que, dentre todos os nossos colegas (autorizados ou não a captar o que quer que seja), ninguém levanta a voz para defendê-la veementemente? Não há coragem? Não há capacidade de indignação? Será que no Brasil só há arremedo de indignação udenista? Maria Bethânia tem sido honrada em sua vida pública. Não há nada que justifique a apressada acusação de interesses escusos lançada contra ela. Só o misto de ressentimento, demagogia e racismo contra baianos (medo da Bahia?) explica a afoiteza. Houve o artigo claro de Herman Vianna aqui neste espaço. Houve a reportagem equilibrada de Mauro Ventura. Todos sabem que Bethânia não levou R$ 1,3 milhão. Todos sabem que ela tampouco tem a função de propor reformas à Lei Rouanet. A discussão necessária sobre esse assunto deve seguir. Para isso, é preciso começar por não querer destruir, como o Brasil ainda está viciado em fazer, os criadores que mais contribuem para o seu crescimento. Se pensavam que eu ia calar sobre isso, se enganaram redondamente. Nunca pedi nada a ninguém. Como disse Dona Ivone Lara (em canção feita para Bethânia e seus irmãos baianos): “Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há?”

quarta-feira, 2 de março de 2011

Folha de SP: Um emirado para Emir

A Casa de Rui Barbosa em busca de transcendência

RESUMO
Prestes a ser nomeado presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, o sociólogo Emir Sader causa polêmica ao anunciar sua intenção de fazer da instituição, tradicionalmente dedicada à preservação de acervos literários e pesquisas históricas, um centro de discussões sobre as realizações do governo Lula.

MARCELO BORTOLOTI
PAULO WERNECK

UM ESPECTRO RONDA o Ministério da Cultura: o espectro do comunismo.
Não bastasse a polêmica relativa à visão governamental sobre direitos autorais, desde o início do mês a ministra Ana de Hollanda enfrenta a reação de intelectuais contra as políticas que o sociólogo Emir Sader, 67, pretende implementar quando for nomeado para um dos principais órgãos da pasta, a Fundação Casa de Rui Barbosa -o que está na iminência de acontecer. Ao lado do Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB), a instituição carioca é referência em diferentes linhas de pesquisa, entre elas os estudos relativos ao modernismo literário e à história da cultura brasileira.
"Precisamos retomar as grandes discussões sobre o país, que sumiram diante da especialização da vida intelectual", anunciou Sader ao jornal "O Globo", em sua primeira manifestação como dirigente da instituição, embora ainda não tivesse nem sequer sido nomeado. "Onde houver um foguinho a gente vai jogar álcool para ter reflexão." Conforme disse em entrevista à Folha, na última quarta-feira, em seu apartamento no Leblon, o que se produz na casa "não é potencializado, não tem temas de muita transcendência".
Foi inevitável: as declarações de Emir Sader soaram como uma espécie de "bullying" de uma instituição de ponta, até então tida como sólida, produtiva e modelar.

BOATOS As ideias de Sader para a Casa de Rui Barbosa transformaram a instituição numa "central de boatos", segundo disse à Folha um pesquisador da casa que não quis ser identificado.
Causaram também apreensão na intelectualidade "de fora" da casa, que viu em seus propósitos desconhecimento das atividades lá realizadas, além de sinais de aparelhamento petista e da intenção de implantar um programa próprio, alheio à produção atual e à vocação da fundação: preservar, estudar e divulgar acervos de grandes intelectuais brasileiros.
Boa parte dos recentes livros de textos inéditos, biografias, volumes de correspondência e edições críticas de autores como Clarice Lispector, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade tem origem em pesquisas lá realizadas.

POLÊMICA A última polêmica envolvendo Rui Barbosa remonta a 2004, em torno da grafia de seu nome. Enquanto a reforma de 1943 e a própria Casa preconizam a grafia "Rui", com i, os herdeiros da Águia de Haia pleiteiam "Ruy", com "y". Desta vez, porém, a coisa parece ser mais séria.
Emir Sader anunciou à Folha que pretende transformar a instituição num centro de debates sobre "o Brasil para Todos". O uso do slogan do governo Lula não é casual. A seu ver, a redução na desigualdade que teria ocorrido nos oito anos de governo petista não encontrou sua interpretação.
Sader não esconde a intenção de construir em sua gestão o aparato teórico para as realizações do governo. "Quem mais incentiva isso é a Dilma", diz, citando de cabeça uma entrevista dela, publicada em livro organizado por Sader: "Vocês têm que teorizar esse troço, nós estamos fazendo. Nós não temos tempo de pensar os limites, as contradições, os potenciais". Mas isso não caberia, por exemplo, à Fundação Perseu Abramo, do PT? Sader afirma não querer fazer uma discussão "partidária", mas "pública", por isso a necessidade de enraizá-la num órgão governamental.
E a recente tese de André Singer, exposta em artigos na revista "Novos Estudos Cebrap" e na Ilustríssima, sobre as raízes do lulismo, não seria uma "decifração do enigma" Lula, que Sader pretende fazer? Para ele, trata-se de um "ovo de Colombo": "Vai ter trilhões de livros jornalísticos, né? As interpretações do Andrezinho Singer são bem importantes porque são óbvias, né? Chega um limite e ele não avança mais. O lulismo etc. e tal. É descritivo, descreve um fenômeno real, mas não faz a anatomia daquilo."

MINISTRO "O Emir queria ser ministro", disse à Folha uma fonte que pediu para não ter seu nome revelado. De fato, foi grande o seu empenho na campanha de Dilma Rousseff, tendo organizado um encontro da candidata com 300 intelectuais e artistas, entre os quais Chico Buarque. Também organizou um livro sobre o governo Lula, com o assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, e debates sobre o mesmo tema.
A presença magnética de Chico Buarque no evento, vista como determinante para a adesão dos intelectuais a Dilma, ironicamente teria bloqueado as pretensões de Sader, que viu a irmã do compositor e romancista sendo alçada à cabeça da pasta. A Casa de Rui Barbosa seria, então, um "prêmio de consolação" para ele.
Seus planos, no entanto, são ambiciosos: ele pretende fazer da casa uma ponta de lança para a implantação das políticas do ministério. Além disso, tem a intenção de corrigir, a partir da Fundação Casa de Rui Barbosa, um mal que acredita estar disseminado na universidade brasileira: a "especialização". A casa, disse ele, faz "tudo muito especializado, muito interessante, mas meio de costas para a realidade".
"O que um espaço cultural público pode fazer para superar esse deficit de interpretação?", pergunta-se. A saída seria "renovar temáticas" e trazer "de volta" as "grandes questões", criando "um espaço de debate público sobre temas candentes do Brasil".

TRANSCENDÊNCIA Entre os intelectuais, ficou a sensação de que Sader não reconhece o caráter público dos estudos literários, jurídicos e de história da cultura não alinhados ao marxismo. Não teriam também o que ele chama de "transcendência", sem discutir "temas contemporâneos" -cujo foco, no caso, é o "Brasil de Lula".
Sem querer reagir publicamente a um presidente que ainda não foi nem sequer nomeado, restou à equipe da "Casa Rui", como é conhecida, o proverbial bom humor carioca. O burburinho dos corredores passou a especular sobre a conveniência de entoar a "Internacional" pela manhã; se o jardim onde Rui Barbosa eventualmente fazia a sesta seria transformado num canavial -ou se, no pior cenário, todos seriam enviados a Cuba para cortar cana.
Fora da casa, as reações não demoraram a chegar -e sem o recurso do "off the record", em que as fontes dão informações a jornalistas com a condição de não serem identificadas no texto. Em entrevista à Folha, a pesquisadora do IEB Telê Ancona Lopez afirmou: "É preciso entender como as coisas são antes de sair propondo soluções demagógicas. O acervo da casa suscita e pode suscitar debates contemporâneos sem precisar recorrer a palavras de ordem", diz.
O crítico literário Luiz Costa Lima qualifica o pensamento de Sader como "marxismo parnasiano". "Não é possível ter uma análise da sociedade sem levar em conta todos os seus aspectos", diz ele. "E esta linha de pensamento tende a achar que a análise cultural é uma besteira, que o mais importante é a questão econômica."
O historiador José Murilo de Carvalho, que escreveu o clássico sobre a primeira república "Os Bestializados - O Rio de Janeiro e a República que não Foi" (1987) enquanto pesquisava na casa, afirmou à Folha: "Transformar uma casa que pertenceu a um ícone do liberalismo que foi Rui Barbosa num espaço justamente para seus inimigos ideológicos seria uma grande traição", diz.
Para outro historiador, Ronaldo Vainfas, que lá trabalhou na década de 1980, "discutir assuntos de esquerda não tem a ver com a história da casa. Quando qualquer instituição fica muito politizada, a pesquisa sai perdendo". Segundo ele, os "grandes temas" mencionados por Sader não passam de grandes bandeiras ideológicas.
No âmbito jurídico, Aurélio Wander Bastos, professor na Universidade Candido Mendes, frisou em carta a "O Globo" que os estudos sobre jurisprudência realizados na casa "muito contribuíram para o moderno conceito de súmula vinculante", quando uma decisão do Supremo passa a valer automaticamente em casos semelhantes julgados em instâncias inferiores.

MARXISTAS X TROPICALISTAS A briga de certa forma reedita uma velha disputa travada na esquerda brasileira. De um lado, estão os marxistas, que veriam na atividade cultural um instrumento de conscientização política, descendentes dos Centros Populares de Cultura (CPCs) da UNE dos anos 60. De outro, intelectuais com formação na esquerda "tradicional", porém filtrada por experiências culturais pós-modernas, como o tropicalismo, Maio de 68, o cinema novo e a poesia marginal -todas elas fundamentais para entender o Brasil nas últimas décadas, sobretudo as articulações entre cultura erudita e cultura popular.
Ao absorver manifestações que vão da literatura de cordel à caricatura e o humorismo, da crônica jornalística à correspondência privada, esses intelectuais deram dimensão política a temas que até então ficavam restritos a uma esfera puramente "cultural", e desviaram a produção intelectual do monopólio dos "grandes temas" do marxismo, aos quais Emir Sader quer voltar.
Boa parte dos pesquisadores da Casa Rui tem esse perfil, inclusive o atual presidente, José Almino, que é poeta, letrista de canções populares e amigo de Caetano Veloso. O compositor comprou a briga e criticou Sader em sua coluna no jornal "O Globo": "Ruim mesmo foi a entrevista de Emir Sader que li sobre sua entrada na Casa de Rui Barbosa".
Caetano disse ter a sensação de "empobrecimento de visão" ao ler os nomes que Sader pretendia levar para as discussões na Casa Rui, "figuras marcadas da esquerda oficial", como Slavoj Zizek, Eduardo Galeano e Marilena Chaui. "Gosto de Marilena", escreveu Caetano, "mas não de sua cantilena contra a mídia para absolver mensaleiros. Refrão que Sader repete na entrevista. Tou fora."
"O Caetano ziguezagueia, fala qualquer coisa", rebateu Emir. "O Gil foi ministro, tem que ter mais coerência, tem que fazer política. Quem diria que aquele nego baiano tem muito mais articulação do que o Caetano?"
Por que Caetano teria entrado na briga? Por temor de perder influência? "Caetano nunca teve influência. Ele fala, causa um certo frisson na praia, "Ah, o Caetano falou". Isso faz parte desse pequeno universo que a imprensa forma, mas não me afeta." E crava: "O Caetano é um cara conservador, tradicional, e o Gil é um cara inovador, com o qual eu me identifico".

INTRANSCENDÊNCIA Na entrevista à Folha, as tentativas de contemporizar não esconderam as críticas, ainda que sub-reptícias, feitas às atividades da casa.
O que Emir Sader destaca na produção da Casa Rui? "Eu vou fazer injustiças... A [historiadora] Isabel Lustosa faz um trabalho legal, a [crítica literária] Flora Süssekind... Mas aí é dizer mais ou menos o óbvio, né. A Lia Calabre, na parte de políticas culturais... Eu não conheço direito, não conheço por ignorância minha, mas não conheço por intranscendência da Casa. Você olha aquilo lá e não sabe em que momento do país aquilo foi produzido. Eu também não me informei muito. As coisas da casa não chegaram a mim. E lá de dentro não saiu essa transcendência, de colocar temas importantes".
Na prática, não parece haver tanta margem para alterar os rumos da instituição, cujos pesquisadores têm estabilidade e cujas verbas, como é a regra nas instituições culturais brasileiras, são escassas. O ministério passará pelo recém-anunciado corte de gastos federais: conforme diz Emir Sader, "tem o corte, o orçamento é menor, e tem dívidas. Desde março não se repassou nada aos Pontos de Cultura. Teve uma manifestação em Brasília. Está estourando na mão da [ministra] Ana [de Hollanda] porque ela fica quieta, é meio autista."
A estratégia será batalhar para abrir concursos públicos -o último foi em 2002, no governo FHC- e aumentar a quantidade de bolsas de pesquisa, além de contar com a progressiva aposentadoria dos atuais pesquisadores. E promover seminários.

SEMINÁRIOS Entre as discussões que Sader pretende organizar, está um debate sobre propriedade intelectual -questão particularmente espinhosa numa instituição que lida com a propriedade intelectual em sua materialidade (cartas, diários, documentos pessoais, rascunhos). Para pesquisar e publicar o material da Casa Rui, é preciso, nos termos da lei, autorização dos detentores de direitos autorais -agentes literários e herdeiros volta e meia idiossincráticos ou exigentes.
Debates sobre questões de gênero e direitos humanos também estão na pauta: "Vamos voltar a discutir a questão da comissão da verdade, vamos trazer experiências argentinas, uruguaias, chilenas". E os direitos humanos em Cuba? "Pela demanda da [secretária] Maria do Rosário, é experiência de comissão da verdade, se avançaram, se não avançaram. Experiências similares: Uruguai, Argentina, Chile, basicamente."
E um dissidente cubano, teria lugar na discussão sobre direitos humanos? "É diferente, a polarização cubana. É tão "Guerra Fria" ainda, contra e a favor, que quem sai vai de tal maneira para a direita... se é que não acaba em Miami". Sader ficou conhecido por ter justificado o fuzilamento de dissidentes cubanos em nome da soberania do país, em 2003.

TESOUROS Nos arquivos da Casa Rui repousam tesouros: potenciais livros de correspondência, documentos pessoais que fariam a alegria de pesquisadores, editores e leitores. Criada a partir de um museu-biblioteca fundado em 1928 pelo presidente Washington Luís para preservar, estudar e divulgar o legado do intelectual baiano, a Casa Rui tornou-se, nos últimos 30 anos, uma instituição de ponta na área dos estudos literários, da Primeira República e de história da cultura, além da vocação natural para estudar o direito e a copiosa produção de Rui Barbosa entre 1849 e 1923.
A instituição funciona na rua São Clemente, uma das mais bonitas do Rio, que começa na praia de Botafogo e termina aos pés do Corcovado, que se deixa ver cenograficamente ao fim da rua, entre nuvens. Rui Barbosa comprou a casa em 1893 e lá morou de 1895 até morrer, em 1923. Além dos livros e da papelada, lá estão guardados os bens da família -por exemplo, os veículos que pertenceram a Rui (honrando o estilo do patrono, são chamados de "viaturas" nas publicações da casa).
É vasta a lista de trabalhos relevantes lá realizados. Para citar apenas alguns exemplos, foi ali que Antonio Houaiss escreveu um monumento sobre edição de livros no país: "Elementos de Bibliologia" (1967). Também foram realizados trabalhos relevantes na área de filologia, como o "Vocabulário do Português Medieval", de Antônio Geraldo da Cunha, e o levantamento de manuscritos de autores como Álvares de Azevedo, José de Alencar e Cruz e Souza.
Mais recentemente, foi feito o preparo de uma edição crítica dos primeiros livros de poesia de Carlos Drummond de Andrade, por Júlio Castañon Guimarães, que também assina o estabelecimento de texto do volume de "Crônicas Inéditas" de Manuel Bandeira (Cosac Naify). A produção de Drummond para os jornais ainda inédita em livro foi levantada pela pesquisadora Isabel Travancas.

ACERVOS No Arquivo-Museu de Literatura, com acesso restrito a pesquisadores autorizados, há 123 acervos de intelectuais centrais no modernismo brasileiro, entre os quais Drummond, João Cabral, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Clarice Lispector, Pedro Nava -e por aí vai. Esse material é organizado, anotado e estudado por uma equipe de pesquisadores que goza de uma autonomia inexistente nas universidades, cada vez mais burocratizadas. Os pesquisadores não são obrigados a dar aulas e têm liberdade de escolha para encaminhar seus estudos. As equipes de pesquisa prestam contas em relatórios anuais que detalham sua produção.
É significativo que a especialidade da Casa -a conservação e a pesquisa de acervos- tenha se dado justamente sob a égide de Rui Barbosa, o homem que mandou queimar os arquivos dos senhores de escravos que reivindicavam indenização do Estado após a Abolição. A queima, cujo objetivo seria inviabilizar qualquer tipo de pleito financeiro por parte dos senhores de escravos, prejudicou gravemente o atual conhecimento do mercado negreiro no Brasil da Abolição.
O caso foi estudado por um pesquisador da Casa, Eduardo Silva, no livro "Rui Barbosa e a Queima dos Arquivos", publicado pela Casa Rui em 1988 e vendido no site da fundação por R$ 10. Entre as pesquisas que Eduardo Silva realizou na casa, está um trabalho que revelou a existência de um quilombo fundado no Leblon, analisado no livro "As Camélias do Leblon" (Companhia das Letras).

SEMENTE Em 1973, Drummond publicou em sua coluna no "Jornal do Brasil" o texto "Em São Clemente, 134".
"Poucas pessoas souberam (ou perceberam)", escreveu o poeta, "que alguma coisa de novo aconteceu numa velha mansão da rua São Clemente, ao findar o ano, em honra e benefício das letras. Sem alarde, inaugurou-se na Casa de Rui Barbosa o Arquivo-Museu de Literatura, possível semente de outros".
Mais adiante, ele pede ao escritor João Condé que envie ao Arquivo-Museu "algumas das inúmeras riquezas dos seus "Arquivos Implacáveis", que nem por isso ficarão menos implacáveis e mais pobres, tá bom?". E arremata: "Colecionador ou não colecionador, que tenha em casa um retrato, uma carta, um poema, um documento de escritor brasileiro digno do nome de escritor, e pode com ele "enulentar" [sic] o arquivo-museu menino, dirigido pelo espírito público de Plínio Doyle na Casa de Rui Barbosa: faça um "beau geste" [gesto nobre], mande isso para São Clemente, 134, e terá oferecido a si mesmo o prêmio de uma satisfação generosa".